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terça-feira, 23 de setembro de 2014

O candidato

Por Bruno Monteiro


Manhã quente naquele município da zona da mata alagoana. Em uma escola estadual com paredes infiltradas, reboco caído e azulejos arrancados, junto com um amigo me disponho a falar sobre ética e eleições para alguns jovens. Pela manhã nada de excepcional, falo durante quarenta minutos, o público próximo aos 15 anos faz com que exercite o uso de palavras de melhor compreensão. Aqueles livres da timidez arriscam questionamentos prontamente respondidos pelo meu colega, enquanto isso bebo um pouco de água para diminuir o efeito do calor naquele pátio.

À tarde, enquanto meu amigo fala para alguns garotos de 10 e 11 anos, no papel de espectador observo nos rostos infantis a curiosidade com os dois engomadinhos de papo estranho. Chega a hora das perguntas, também assumo a missão de respondê-las, após o período de retração coletiva surgem os primeiros questionamentos. Um deles pergunta: O que faz um Deputado?

Olhei para o hiperativo menino, anteriormente sua falta de concentração me chamou a atenção, pensei que explicar detalhadamente o que faz (ou deveria fazer) um deputado não alcançaria o objetivo pretendido. Lembrei que momentos antes, enquanto era espectador, ele tinha perguntado se eu era Policial Civil, respondi que não, mas sua agitação arrancou um leve sorriso. Eis que explicar para um garoto de quase 11 anos as atribuições de um parlamentar não pareceu nada fácil. Arrisquei.

- Se na sua casa você puder fazer qualquer coisa, sem ninguém reclamar, o que você faria?
- Eu faria mais bagunça.
- Se a sua mãe brigar ou falar o que é certo, você não vai fazer o que ela diz e se comportar?
- Vou sim.
- Basicamente é isso o que faz um Deputado, ele fiscaliza e diz o que está certo e está errado quando o Presidente ou o Governador está fazendo o que quiser. Assim ele pode melhorar as coisas e dizer onde o dinheiro deve ser aplicado. Além disso, o Deputado faz as leis que dizem o que é certo para os juízes, os promotores e os advogados porque eles não podem fazer o que querem, só o que diz a lei. Está vendo como é importante o trabalho do Deputado?
Tenho como resposta um balançar afirmativo com a cabeça.
Ao fim daquele momento vou cumprimentar o jovem, escuto que ele vai ser candidato a Deputado na escola. Alguém diz: "Canta aí a música que você fez". Peço para ouvir. Meio sem jeito e com a voz baixa escuto alguns versos sobre ele ser o melhor e mais honesto para o cargo. Retribuo com um sorriso, aperto sua mão e digo: "Vai lá futuro vereador".

Com seu cabelo de índio, os olhos verdes e a pele morena, se dirige para a sala de aula nos corredores tão mal tratados.

Talvez nunca mais veja o pequeno rapaz e depois de algum tempo ele nem se lembre de mim. Mal sabe, o pequeno lajense, ter ensinado mais do que pude ensiná-lo... Uma lição de esperança, afinal, algum dia ele pode mudar o destino daquela gente com a conduta cantada nos seus versos infantis.
Parabéns, é assim que consegue um voto e você conseguiu o meu!



sexta-feira, 11 de abril de 2014

A "falência do município"

"Estuda e não tem um carro importado, uma chácara, etc.". Assim pensam os espertos, bajulados, cínicos, canalhas...

Por Bruno Monteiro





Algumas vezes escrevi que União dos Palmares é uma cidade onde a população valoriza apenas sobrenomes, dinheiro (na maioria das vezes surrupiado dos cofres públicos), poder e todos esses ingredientes que levam uma sociedade ao declínio. Já faz algum tempo que os cidadãos comuns (poucos "homens e mulheres de bem") do município sentem vergonha ou questionam se ainda vale a pena ser honesto. Isso mesmo, afinal, a honestidade por essas bandas não vale muita coisa se não for acompanhada de uma enorme quantia financeira nos bolsos.

O crescimento pelo trabalho e estudo é alvo de chacota: "Estuda e não tem um carro importado, uma chácara, etc.". Assim pensam os espertos, bajulados, cínicos, canalhas... Durante anos alguns enriqueceram, outros se transformaram em pedintes do poder público, políticos compraram votos e enriqueceram financeiramente, pois saber ao menos ler e escrever não é algo que se compra. Outros iludiram com o progresso "de uma indústria só", hoje falida.

Sempre pensei e disse, o desenvolvimento não está na nomeação absurda de pessoas no serviço público, não está na proliferação de bares ou postos de combustíveis com preços idênticos, não está nos carros importados, nas festas com leilão de virgindade, nas autoridades amigas e corruptas, nos bois, vacas ou apresentações musicais, o desenvolvimento está dentro de cada um, na postura correta, na cordialidade, na sinceridade, no trabalho digno.

 Não acredito e não acreditarei em nenhum administrador que não torne pública as contas municipais, as receitas, despesas, número de servidores, etc. A tal "falência do município" não ocorreu agora, ela ocorreu há muito tempo, quando os bons se tornaram "alguns idiotas revoltados". A mudança deve começar dentro de cada um, lute pelo que acredita assim sua vida e seu meio valerá à pena.