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sábado, 17 de agosto de 2013

Os sabores da minha infância

Por Joaquim Maria




Hoje, depois de muito tempo, ainda guardo na lembrança os cheiros e os sabores das comidas da minha terra. As coisas mais simples me trazem grandes recordações, como o cheiro do cuscuz de milho que a minha mãe fazia numa cuscuzeira de barro, onde ela colocava a massa dentro de um compartimento, amarrava com um pano, para que a mesma não passasse para o outro lado, onde estava a água, que produz o vapor, essencial para o cozimento da iguaria.

Todo o processo começava nas primeiras horas da manhã com o descascar e a limpeza das espigas de milho seco. Logo depois as espigas eram raladas uma a uma, produzindo um som que acordava todos da casa; era o sinal que o nosso café da manhã, em poucos minutos, estaria pronto. Ao mesmo tempo do cozimento, minha mãe ia até a porta com uma vasilha, esperar o vendedor de leite fresco, trazido das fazendas da região. Em seguida o leite era coado e colocado para ferver no fogo de carvão vegetal. O cuscuz era tirado do fogo e colocado em um recipiente onde que quase ao mesmo tempo, minha mãe adicionava o leite puro e de nata amarela.  O cheiro era impressionante! A combinação era perfeita!

O cheiro do cuscuz impregnava o ambiente. Todos já de pé e esperando o chamado da minha mãe para nos deliciar com aquele belo manjar. Hoje em dia esse prato tipicamente nordestino não tem o mesmo sabor e o cheiro do que era feito artesanalmente pela minha mãe, pois a industrialização da massa do milho e do leite tira a rusticidade dos ingredientes, modificando o cheiro e o sabor dos mesmos.

Como não se lembrar da galinha caipira com fava verde! Do feijão de corda, transformado em tropeiro com destaque para o cheiro forte do pimentão. Da macaxeira com carne de charque, do inhame de cor branca como a neve. Sem falar da buchada de bode, do sarapatel, da feijoada com tudo dentro; verduras, legumes carne de charque, toicinho, pé e orelha de porco. Como não ficar com a boca cheia d’água se lembrando dessas delícias?

Em dias de festas os pratos se multiplicavam! No natal os perus caipiras fazia parte do cardápio natalino. Recheado, crocante e ao mesmo tempo macio; bem dourado e de cheiro irresistível era devorados por toda família. Na semana santa, os peixes, camarões, siris eram consumidos fritos ou ao molho de coco fresco; além da abóbora, maxixe, bredo; tudo ao leite de coco.
Meu avô na cabeceira da mesa era quem comandava o banquete na semana santa. Sempre estávamos juntos nestes períodos; a família se reunia era tanta gente, que não cabia na mesa principal da casa; por isso era preciso deslocar alguns parentes para as cadeiras e sofás que existia na casa.

Tapiocas com coco, bejus, pés de moleque, mungunzá, arroz doce, também fazia parte do cardápio da minha infância. Os momentos de degustação e confraternização da nossa família era também, o momento de poder saborear os quitutes mais saborosos da culinária nordestina. Por este motivo, apesar da industrialização, sempre que eu posso; procuro consumir essas iguarias de sabores especialmente marcantes. 

sábado, 10 de agosto de 2013

A Feira de União dos Palmares

Lembranças do Passado...
Por Joaquim Maria. 
Foto: JMarceloFotos

Desorganizada e totalmente ilógica é a feira de rua da nossa cidade. A Rua Correia de Oliveira, conhecida como rua da batata hoje não tem mais tubérculo sendo vendido, aos montes, próximo aos seus meios fios, quase em cima da calçada. Era rua que continha além das batatas, macaxeiras e inhames; comida tipicamente nordestina. Hoje quase não existe feira neste logradouro.

A feira da banana ainda continua no mesmo lugar, mas juntou-se a ela, outros produtos de época, como manga, jaca, umbu, jabuticaba, pimenta malagueta, feijão de corda... As cordas, feitas de agave, também tinha o seu lugar garantido na feira; ficavam estendidas na rua atrás do palco da Praça Basiliano Sarmento, em frente às Casas Daher.

Artistas de rua também faziam parte da feira. Violeiros, duplas de emboladores, vaqueiro aboiador, jogos de enganação, malandros e batedores de carteiras. Todos ali misturados...

No mercado as mais variadas carnes eram vendidas ainda como hoje. No segundo compartimento, divido apenas por um portão, quando nos aproximávamos poderíamos sentir o cheiro quente da farinha de mandioca. Da própria mandioca era extraída a goma para fazer tapioca, beijus e que misturado ao coco, fazia um par perfeito com um café moído no pilão. Ainda podíamos encontrar o pé de moleque, outra iguaria muito apreciada pelos frequentadores da feira   . Ao lado do mercado, nas bancas ou mesmo pequenos estabelecimento nunca faltou o famoso sarapatel, servido com farinha e pimenta era consumido desde a sexta-feira à noite, fazendo a alegria dos bebedores de aguardente e cervejas, como uma verdadeira tradição. Também era comprado para ser consumido em casa.

Tecidos e roupas feitas é na Avenida Monsenhor Clóvis  hoje com a junção das bancas de sapatos, forma um shopping Center a céu aberto, pois tem mercadoria para todo gosto. Calças, camisas, peças íntimas, redes, cobertores, lençóis, de boa qualidade que não ficam devendo nada as lojas estabelecidas ou até as marcas de grife. 

Na feira sempre encontrávamos com todo tipo de gente, os vendedores, os garotos pegadores de carrego, a dona de casa, o profissionais liberais, autoridades e tantos outros anônimos faziam a grandeza da feira da nossa cidade.

Hoje a feira está desorganizada, as ruas não são separadas por produtos e os consumidores acham dificuldades em encontrar encontra-los. É primordial e necessário se faz, organizar a nossa feira, para que a população volte a ter onde achar os seus mantimento com rapidez, agilizando o tempo de permanência na feira.

sábado, 3 de agosto de 2013

MACUMBA NA RUA DA CACHOEIRA

Por Joaquim Maria

Foto da internet

Rua Frei João ou simplesmente Rua da Cachoeira, de qual a cachoeira tiraram o nome do logradouro, não tenho o conhecimento; mas há tempos era conhecida pelos terreiros de candomblé, onde os repiques dos atabaques eram ouvidos, principalmente nas noites sextas-feiras.

E era nesse clima de som afro que a nossa turma, em algumas noites, ia tomar “retetéu”, uma mistura de vinho, aguardente, canela e mel, nos terreiros de macumba daquela rua. Na verdade nós não tínhamos nenhum praticante da religião, a nossa ida ao terreiro era uma espécie de diversão e/ou uma confraternização entre pessoas.
Nós gostávamos do clima, podemos dizer assim, um tanto emblemático para o nosso conhecimento à época e dos sons que eram executados nas timbras.  Necessariamente sempre um de nós assumia o controle de algum instrumento percussivo, o que nos envaidecia muito, o fato de saber tocar e conhecer alguns ritmos que fazem parte do batuque do candomblé, enquanto os participantes dançavam numa coreografia contorcionistas, soltando alguns gritos incompreensíveis, gingando os seus corpos freneticamente. 

Chegávamos a perceber que a nossa presença já era esperada pelos os participantes efetivos do rito, parecia que com a nossa chegada o clima esquentava, pois além do inusitado “retetéu”, havia sempre um grande consumo de cervejas e comidas.

Mas a nossa presença na casa era quase sempre por pouco tempo, pois ainda precisávamos terminar o nosso tour “sextiano” pelas espaças festa que acontecia na nossa cidade; ou até mesmo em mais uma rodada de cervejas, nas boates ou no bar com o maior número de frequentadores daquela noite, de preferencia o que estavam mais cheio de garotas.

A Rua da Cachoeira é bastante conhecida em nossa cidade onde ainda hoje, residem famílias tradicionais, que mesmo com o preconceito, principalmente naquela época, nunca deixaram de morar lá e respeitar a religiosidade das outras pessoas.
Hoje, quando nos encontramos, lembramo-nos das noites de sons, gingas e muita alegria na macumba da cachoeira.

SARAVÁ!

sábado, 6 de julho de 2013

União dos Palmares já teve “Cine Imperatriz”

Lembranças do passado

Por Joaquim Maria



Que pena. Hoje não existe mais cinema na nossa cidade! Lugar de diversão e dos primeiros namoricos dos adolescentes da nossa pequena cidade. O Cine Imperatriz apresentava na única sessão diária o que tinha de mais atual em matéria cinematográfica da época.

Vavá que de dia entregava jornal era responsável pela projeção dos filmes.  Além disso, ele fazia os anúncios tanto dos filmes, como também dos jogos de futebol que eram realizados aos domingos, no Estádio Mário Gomes, na Rua Nova.  A placa com o anúncio do jogo, que era feita de uma armação de madeira e uma grossa camada de jornal colada nesta mesma armação e; com uma base de tinta branca sobre a camada de jornal, onde ele, com letras coloridas, faziam o enunciado do desafio futebolístico. Esta placa ficava na Avenida Monsenhor Clóvis, em frente ao Bar do seu Zequinha, hoje Bar do Boiadeiro; amarrado no poste do canteiro central da praça.

Mas no cinema foi onde eu assisti aos primeiros filmes de bang bang, karatê e até sem puder, consegui entrar e assistir diversos filmes para maiores, inclusive Dona Flor e Seus Dois Maridos, Com Sônia Braga; foi quando Sr. Armando Assunção, dono do cinema e porteiro deu uma bobeira; eu aproveitei esse momento de descuido e consegui entrar e me misturar aos adultos, para não ser colocado pra fora do recinto.

Sentei-me numa fila e não percebi que na fila de trás estavam minhas três professoras do Colégio Santa Maria Madalena. Eu ainda estava me escondendo de “Seo” Armando, quando ouvi alguns risos e cochichos bem próximos aos meus ouvidos. Fiquei mais retesado ainda, mais tudo mudou quando as luzes se apagaram e começou a passar o trailer das próximas exibições e por fim o tão desejado filme. Ainda passaram-se alguns dias para que eu pudesse encarrar as minhas professoras no colégio.

Quem quisesse arrumar uma namorada, o melhor lugar era no cinema e se a garota fosse “quente”, levávamos direto para a “galeria”, ambiente de poucos lugares que ficava no piso de cima do velho cinema.

Hoje sinto falta da telona na nossa cidade. O prédio do Cine Imperatriz deu lugar a um supermercado e se você quiser ir ao cinema, tem que se deslocar até a capital.
ÔÔÔÔÔ ÔÔÔÔ ÔÔÔÔÔÔ... Era o grito do Tarzan...


sábado, 15 de junho de 2013

Alto do Cruzeiro

Memórias do Passado...




Qual cidade nas décadas de 70 e 80 não tinha uma porção de cabarés bastante movimentados? Aqui em União não era diferente. A Rua do Alto do Cruzeiro era o point dos prostíbulos e por onde desfilavam as mais belas prostitutas do interior alagoano. Na verdade só perdia para o Mossoró, em Maceió.  Mas mesmo assim, as moças que trabalhavam na distinta casa da capital alagoana, vez por outras, desembarcavam em terras palmarinas, para o delírio da “macharada” interiorana, sejam solteiros e principalmente os casados; que deixavam suas submissas esposas em casa e passavam a frequentar assiduamente as casas da Rua do Alto do Cruzeiro; reduto da alegria dos frequentadores e até de crimes passionais.

Neste cenário, a nossa turma também frequentava o baixo meretrício em busca de diversão. Não necessariamente de sexo, mas de bebidas e de músicas dançantes e preferencialmente, românticas; estilo dor de cotovelo; onde embalados por estas melodias, alguns ou quase todos, viviam a temática musical, bebericando e confessado as suas mágoas às meninas do Alto. Até futebol nós íamos assistir nos cabarés em companhias das nossas amigas. Chegávamos com antecedências e já começávamos a dançar e tomar algumas cervejas, com o som na maior das alturas, na verdade existia uma competição para ver quem tinha o melhor som das casas noturnas (e diurnas), pois o movimento só diminuía no período da manhã.  Assim que o jogo começava, o som era desligado e era a vez das garotas ficarem ao nosso lado assistindo ao jogo.  Depois da partida terminada o som voltava a animar o ambiente. A nossa ida a famosa rua, sempre se dava no período da tarde, na matinê, como nós mesmos chamávamos.

Lembro-me que a Rua do Alto ainda era de terra batida e que até os esgotos, naquela época, ainda escorriam a céu aberto. Hoje já rua está calçada e já não existem as casas noturnas, mas ainda encontramos pessoas remanescentes da época de glória da Rua do Alto do Cruzeiro, reduto de malando e mulheres da vida e, do ódio e dos ciúmes das mulheres casadas da nossa cidade.

Por  Joaquim Maria